Certa vez, seis caçadores que acostumavam caçar juntos animais da floresta, programaram sair por uns quinze dias. Para isso se preparam bem e começaram a viagem. No trajeto iam conversando sobre as viagens anteriores que haviam feito. Os viajantes foram dormir no lugar aonde chegaram ao entardecer e no dia pela madrugada se levantavam para seguir viajando até chegar ao lugar desejado.
Quando chegou ao lugar chamado “salva-vidas”, os caçadores se dispersaram de dois em dois para ir caçar. Quando voltaram ao acampamento se deram de conta que todas suas coisas estavam feitas e arrumadas. Encontraram a comida preparada, sua roupas lavadas, a carne defumada, sobretudo havia folhas de urucum e carás comidas e folhas caídas juntas.
Ao principio não se deram de conta. Pensavam que algum deles fazia a comida ao voltar primeira da caçada. Porém deram de conta no dia seguinte quando se colocaram de acordo para preparar uma sopa de carne com macaxeira.
Ao voltar depois de três dias se encontraram com a surpresa que a comida que havia não era o que havia combinado senão que era a mesma que haviam comido no dia anterior, que era pango de carne com macaxeira e banana.
Os caçadores se perguntaram entre eles quem havia preparado a comida e por que não havia feito à sopa. Entre eles se diziam “eu não fui”, “nem eu” e ao final descobriram que as coisas que encontravam não preparar nenhum deles. Também se deram conta que as folhas de urucum permaneciam comidas e que não havia folhas caídas de carás debaixo do tronco.
Decidiram descobrir e capturar quem preparava tudo. Conversaram entre si e se colocaram de acordo em subir na árvore mais alta mais próxima do acampamento. Assim poderiam observar até lá embaixo e ver quem ajudava o acampamento.
De repente, vieram um grupo de mulheres de pele brancas, loiras, altas e bem vestidas que nunca em suas vidas haviam visto, quem com suas bolsas de tucum que chamamos de “jikra” caminhavam pela floresta dirigindo-se até o acampamento. Quando chegaram começaram a preparar a comida, a lavar a roupa dos caçadores, a defumar a carne crua que havia em cima do tablado que chamamos de “pari” e ao final balançaram o tronco de urucum e tiram folhas de carás. Enquanto elas faziam as coisas, os caçadores pensavam como capturar elas para levá-las e fazê-las suas mulheres.
Porém, três deles tinham esposas e os outros três não. Então, disseram: “vamos baixar sem fazer ruídos. Uma vez que baixemos todos corremos cercando até captura-las para que sejam nossas mulheres”. Enquanto corriam um deles dizia: “vamos capturar elas para que sejam nossas mulheres e assim deixamos a mulher que temos em casa”.
Assim começaram a lutar com as mulheres. Cada caçador capturou uma mulher e as demais correram. As mulheres capturadas diziam: “soltem-nos, por favor, nos deixem voltar a nossa casa. Nós somos de longe, nossos pais vão se preocupar muitos com a gente e vão vir nos procurar”.
As mulheres fizeram de tudo o possível para escapar dos caçadores, porém não conseguiram. Então começaram a se transformar em animais, como cobras, lagartos pretos, onças, fantasmas e outros animais. Os caçadores não suportaram mais e as deixaram ir convertida em animais. Porém um não quis soltar a mulher por mais que ela se convertesse em todo tipo de animais para dar medo ao caçador.
Chegou um momento que a mulher se tranquilizou. Compadeceu-se e aceitou ficar como mulher de caçador. Os demais ficaram admirados e se perguntavam como seu companheiro havia conseguido aguentar tudo e agora contava com uma mulher a seu lado. Assim diziam eles ao ver a mulher atendendo a seu marido tranquilamente.
Depois, os caçadores voltaram a suas casas levando carne de caça que tinham caçado, alguns tristes e outros mais alegres. Quando chegaram a sua aldeia contaram o que os havia acontecido na floresta e todos se surpreenderam ao escutar o relato. Um chegou com sua mulher da floresta, apresentou a sua família e se separou do grupo para servir a sua mulher.
A companheira vivia na casa com os pais do homem caçador. Fez sua roça de batata-doce, cará, macaxeira e outros plantios. Depois de ter sua roça, a mulher acostumava juntar as folhas secas de batata-doce e cará. Amontoava o lixo em um canto em seu pátio e não a jogava, ficava parecido um ninho.
Um dia a sogra da mulher disse: “jogarei todo esse lixo que juntou minha nora, enquanto ela estar em sua roça” e assim o fez.
De repente a nora começou a sentir dor nos seios quando estava cultivando junto com seu marido. E disse: “vou voltar para casa e irei ver meus filhos”. A mulher não esperou mais seu marido. Começou a caminhar em direção a casa da sogra. E o marido foi atrás dela. Quando chegou ao pátio saíram duas crianças chorando e se foram até sua mãe. Havia saindo do barranco onde a sogra os havia jogado como lixo.
Então a mulher disse: “Até aqui já deu minha vida contigo, pois sua mãe jogou os meus filhos, porque não os queres e não me quer também. É melhor que vamos embora”. Logo a mulher deu um forte assobio e baixou o arco-íris para buscar ela. O homem surpreendido se colocou a chorar suplicando que não o deixe, que ele amava muito os seus filhos. Ela o perguntou pela ultima vez: “Vem comigo ou fica? Porque já vamos para sempre”. O homem não se atreveu a subir no arco-íris. A sogra também suplicava entre prantos para que não se fossem, porém a mulher não quis mais ficar.
A mulher assobiou novamente e o arco-íris se elevou e despareceu da terra. O homem decepcionado ficou sem saber o que fazer, pois havia ficado com raiva de sua mãe. Então decidiu ir a floresta para ver se poderia encontrar a sua mulher.
De tanto caminhar se encontrou com um caçador que estava escutando um macaco para caçar. Este o disse: “Será que mato?” O pobre homem respondeu: “melhor não! Está só, deixá-lo em paz, não o mate”. O caçador se compadeceu e não o matou e seguiu caminhando. Depois o homem decepcionado escutou uma voz que o chamava. Era o macaco que se aproximou e disse: “Obrigado por ter me salvado da morte, eu te ajudarei a encontrar a tua mulher”.
Quando escutou as palavras do macaco, o homem se assustou, porém no final o agradeceu pela sua ajuda.
O macaco deu varinha mágica de galho da árvore de Manduvi e lhe disse: “vai rápido direito, sem dobrar para outro lado, porque tua mulher esta por aí voltando de sua roça junto com teus filhos. Com esta varinha aponta até o cipó de sua cesta e quando o fizer o alcançarás”. O homem não esperou nada mais e começou a caminhar. Quando caminhou boa distancia parou e olhou para adiante. Viu a mulher carregando sua cesta com macaxeira e banana e atrás dela o seus filhos, um menino e uma menina.
Então, o homem fez o que o macaco o havia ensinado e assim alcançou a mulher com seus filhos. Ao ver a seu pai, as crianças se alegraram muito e também a mãe. Perguntaram como havia chegado e porque havia vindo e o homem disse: “eu vim pelos meus filhos, quero servi-los, ademais quero que estejamos juntos e tenhamos uma casa feliz”. A mulher disse: “bom, espera um momento aqui, que eu irei até a minha casa e conversarei com minha mãe para ver como você poderá chegar até minha casa, porque meu pai é bem raivoso e pode fazer que os animais que cria no pasto, jacarés e tigres te comam”.
Logo a mãe dos meninos foi conversar com sua mãe. A sogra se compadeceu e disse: “traz ele rápido antes que seu pai volte do campo. Vamos esconder ele dentro do pote de barro maior que temos porque agorinha mesmo chega teu pai”.
A mulher foi correndo e trouxe o seu marido para escondê-lo. Quando passou por um lugar onde estavam os animais ferozes o homem se tremia, porque estes o seguiam, querendo comê-los. Apenas chegou a casa, o meteram no pote de barro. Tão logo que chegou o pai da mulher, ficou com raiva porque encontrou desordem na sua casa e não o deram a sua comida a tempo. Ademais ele sentiu cheiro de carne humana.
O pai era alto, gordo, negro e raivoso. Quando foi comer não suportava o cheiro que emanava do homem que estava escondido. O pai perguntava: “quem é? onde está? quero vê-lo, aparece, se apresente nesse momento”. O homem que estava escondido tremia de medo.
Depois de tentar enganá-lo o dono da casa tanto a sogra como a filha o disseram a verdade. Então o pai pediu que tirasse o homem do esconderijo. A mulher destampou o pote de barro e o tirou de dentro.
Logo o sogro perguntou ao homem: “quer criar teus filhos?” Ele respondeu: “Sim”. Então o sogro disse: “Porém para que você fique com minha filha e possa criar a teus filhos tem que passar agora mesmo por umas provas se é verdadeiramente macho e resistente”.
O sogro disse: vai ao campo e traz três veados. O homem respondeu: “sim vou trazer”. A mulher em um descuido do velho o ensinou seu marido que não eram verdadeiros veados, se não os talos de batata taioba que crescia entre as cepas de canas. O homem foi correndo, conseguiu as batatas e as entregou a seu sogro. Este olhou e o agradeceu por haver cumprido o pedido.
Depois o sogro disse: “te farei mais provas. Agora trás duas cobras grandes”. Novamente a mulher ensinou seu marido que eram cipós que crescem nos paus brancos e grossos: “disso trás dois pedaços grandes e entrega a meu pai”, disse a mulher escondida em um lugar. O homem foi rapidamente e cumpriu com a segunda prova.
A terceira prova era mais pesada. O sogro disse que consiga dois camburões grandes e suba até a ponta de uma montanha para soltá-los. Disse que primeira solte um, antes de soltar o outro, entre dentro e se jogar junto com ele. Porém a mulher o disse ao marido que não o fizesse se jogasse junto e sim só solte os camburões. O homem aceitou a prova e conseguiu os dois camburões e se foi a montanha junto com o velho para soltar os camburões.
O velho perguntou se estava preparado e soltou uma pedra que tinha em sua mão. O homem soltou os camburões que soava muito forte quando rolavam, porém ele não se jogou junto desde a ponta da montanha. Quando voltaram para casa, o velho o disse: “agora pode fazer tua casa, porém não remova as pedras e os camburões daí onde estão. Aí criarás os teus filhos e servirás a tua esposa para sempre”.
Porém o homem esqueceu-se dos conselhos do seu sogro e despedaçou as pedras e removeu os camburões. Rapidamente o sogro foi visitar a casa da filha e se zangou com seu genro e armarram uma briga, brigando com as pedras e camburões. Brigando, brigando, subiram até chegar à ponta da montanha, então os dois caíram juntos com os camburões e rebolaram até que se transformaram em trovão e nunca voltaram a serem pessoas.
Por isso que hoje em dia existe o trovão e o relâmpago. O mais forte que deixou surdo a muitos é o sogro e o mais moderado é o genro. Já os raios são as mulheres viúvas que buscam seus maridos entre as pedras fazendo chispas com estes para vê-los e encontrá-los, pois eles andavam buscando dia e noite e quiçá até agora os continuam procurando.
URUCUM
Nome científico: Bixa orellana.
Nome em Kokama: ruku.
CARÁ
Nome científico: Dioscorea trífida.
Nome em Kokama: kara.
BATATA-DOCE
Nome científico: Ipomoea batatas
Nome em Kokama: itika
MANDUVI
Nome científico: Sterculia apetala.
Nome em Kokama: ɨwɨturana
TUCUM
Nome científico: Astrocaryum chambira.
Nome em Kokama: tuku.
BATATA TAIOBA
Nome científico: Xanthosoma sagittifolium.
Nome em Kokama: WITINA
Pari: tablado, churrasqueira, parecido um piso que conhecemos como “paiol”. É feito de paus de tacana, paxiúba, etc. Pari é toda essa construção cuja função é manter, por exemplo, o churrasco em uma cozinha, o tablado de uma canoa, o tablado que se montam para secagem de grãos, o piso (quadro de madeira) em cima de uma árvore para observar e caçar animais, etc.
Jikra: Bolsa de tecido de fibras de tucum.
Mauta: cântaro, jarra, jarro de barro, pote grande de barro no qual as bebidas são preparadas e conservadas em grandes quantidades, por exemplo, chicha, caiçuma e etc. O seu interior é envernizado com breu natural para torná-lo à prova d'água. No Hoje em dia poucas pessoas usam “mauta”, eles foram substituídos por jarros de alumínio ou baldes de plástico.
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