quinta-feira, 16 de março de 2023

Origem da menstruação

Antigamente, em uma aldeia, vivia uma família com dois filhos. Em certa noite os sapos cantavam incansavelmente dizendo “curu-curu”, que quer dizer algo vai acontecer.
Porém passaram dias e noites e não aconteceu nada.
Uma tarde, o mais velho quis ir visitar uma casa. A filha mais velha daquela casa bateu caiçuma e brindou ao visitante em uma mocagua para tomar. Porém a taça de barro ficou muito pesada.
Veio mais gente e não puderam acabar a caiçuma da pequena mocagua pesada. Todos se encheram de tanto tomar caiçuma. Logo a menina convidou a seu pai e ele viu que da testa de sua filha caia uma gota de sangue, que havia pingado na mocagua de caiçuma.
O pai não disse nada. Devolveu a mocagua a filha e depois de tomar caiçuma todos voltaram a suas casas. À noite a árvore de chuchuhuashi fez sonhar o pai da menina e disse: Constrói uma casa grande e anuncia uma importante festa.
Tua filha agora é mulher porque virá seu sangue em cada lua. Isso será assim a partir de hoje, quando eu derramar qualquer dia em cada mulher e dessa maneira começará em outras mulheres jovens a menstruação.
O pai fez tudo o que disse a árvore de chuchuhuashi em seu sonho. Quando esteve tudo pronto, o avô da mulher ordenou convidar todos os Kokama do povo para ver o grande feito. Todos os convidados foram a casa.
Reunidos na noite o mais velho mandou cantar cantos de alegria. O avô pegou uma mocagua cheia de suco de shushuhuashi e derramou em cima de umas folhas de coca torrada e amassada dizendo: este é o sangue que irão derramar todas as mulheres a partir de hoje.
Logo a menina saiu do quarto onde estava escondida e detrás dela saíram varias mulherzinhas. Uma delas estava nua e tinha o corpo pintado de vermelho com sangue menstrual desde a cintura até a metade da perna como se fosse um vestido.
Todos se sentaram no centro da casa. A menina nua disse: “Somos mulheres do povo Kokama, de sangue, corpo e alma. Derramaremos o sangue toda vez quando a lua se mover de lugar. Não teremos dores fortes, não cairá bastante, não iremos morrer.
É um aviso que já estamos aptas para ter filhos e cada vez que uma mulher comece a ter o corpo novo para ser mãe, façam dietar por oito dias. Queiram suas filhas, cuidem bem delas quando são pequenas porque o chuchuhuashi assim nos ensinou”.
Assim pela primeira vez se conheceu a menstruação no povo Kokama. Desde esse dia fazem festa da primeira menstruação, festa da moça nova e faz dietar as mulheres por oito dias.
Por isso, como de costume, quando a menina menstrua pela primeira vez, deve ser colocada em uma rede que esta amarrada no oitão da casa, onde ficará dentro até que acabe a menstruação e só poderá ser cuidadas pelas mulheres, mãe e avó.
Lá dentro da rede ela será alimentada, asseada e feita suas necessidades fisiológicas.
No final da menstruação é feita uma grande festa. Para iniciar a festa, as mulheres levam a moça que esta pintada na parte de cima de jenipapo e parte de baixo de urucum, ficará igual uma semente de tento, totalmente nua, que será levada ao igarapé ou rio para ser lavada pelas mulheres, sem a presença de homem, então veste uma roupa tradicional a moça nova que será apresentada para a comunidade.
Por isso, quando a mulher esta menstruada não pode dormir ao lado do esposo e nem ter relações sexuais, porque vai atrair azar ao marido ou ao homem que encostá-la. Se mulher menstruada ficar no ritual de ayahuasca deixará todo mundo sofrendo vomitando muito. Por isso, a mulher menstruada deve evitar encostar-se a homem algum ou cumprimentar um homem com as mãos.
Chuchuhuashi; Chuchuacha
Nome em Kokama: Chuchawasha
Nome científico: Maytenus laevis, Maytenus macrocarpa.
Tento vermelho-preto
Nome em Kokama: Tentu tururuka tsuni
Nome científico: Ormosia arborea
Nota: A jovem Kokama que menstrua pela primeira vez se pinta e fica igual uma semente de tento. Durante o período da menstruação as mulheres mais velhas da casa pinta a jovem da ponta dos seios até os pés de jenipapo e da ponta dos seios para cima de urucum. Todo asseio da mulher jovem é na rede, onde dieta na rede, faz as necessidades na rede e é cuidada na rede sem poder descer. No dia que acaba a menstruação ela é levada para o rio para ser lavada pelas mulheres, enquanto cantam icaros de sorte e proteção. Depois ela vesta a roupa de festa, onde será apresentada a aldeia. Durante o tempo na rede as mulheres fizeram muitas tranças e seus cabelos, durante a festa da dança da menstruação e cortam as três tranças da nuca da jovem, a trança do meio é presenteada aos padrinhos. No período de menstruação a energia espiritual da mulher fica muito forte, por isso não pode ser vista e nem encostar-se a homem nenhum, se não ela tira toda sorte do homem.
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